terça-feira, 29 de abril de 2008

Zaluzejo

Terça-feira, 29 de abril de 2008.
O post que estava preparado para esta semana nada tem a ver com este. O tema seria regência verbal e o texto já estava, aliás, está pronto, mas vai ficar para uma próxima oportunidade. Mudei de idéia porque alguns de meus alunos voltaram com a cabeça virada da Virada Cultural que aconteceu em São Paulo nos dias 26 e 27 de abril. Antes que vocês comecem a pensar mal dos meus queridos alunos, eu explico. Quem virou a cabeça deles foi o pessoal do Teatro Mágico. Para quem não sabe ainda do que se trata, lá vai: é uma banda devidamente trajada de palhaço, que oferece ao público durante seus shows - uma espécie de sarau circense, com direito a malabares, trapézio etc. - as músicas são pura poesia, ou será que a poesia deles é pura música? A questão é que, depois de ouvir um dos grandes hits da troupe, a canção Zaluzejo, os jovens começaram a refletir sobre um assunto que havíamos discutido em sala durante a semana que havia se passado: a variedade lingüística. Para que você entenda melhor o que inquietou os jovens que estavam lá, deixo aqui um fragmento da letra de Zaluzejo, lembrando a todos que todas as músicas estão disponíveis no site da banda:
http://www.oteatromagico.mus.br/index2.php


"Ah eu tenho fé em Deus... né?
Tudo que eu peço ele me ouci... né?
Ai quando eu to com algum pobrema eu digo:
Meu Deus! me ajuda que eu to com esse problema!
Ai eu peço muito a Deus... ai eu fecho meus olhos... né?
eu Deus me ouci na hora que eu peço pra ele, né?
Eu desejo ir embora um dia pra Recife
não vou porque tenho medo de avião, de torro...detorroristo
ai eu tenho medo né?
Corra tudo bem... se Deus quiser... se deus quiser..."

Pigilógico, tauba, cera lítica, sucritcho,
graxite, vrido, zaluzejo
eu sou uma pessoa muito divertida

Na verdade, as reflexões que dividiram o grupo de garotos e garotas começaram depois que um fã da banda atirou um livro para o vocalista, Fernando Anitelli, durante a execução de Zaluzejo. Anitelli, então, leu para todos os presentes o nome do autor e o título da obra: Preconceito lingüístico: o que é e como se faz?, de Marcos Bagno. Não li esta obra ainda, mas, como muitos dos meus alunos pediram uma postagem tratando do tema, resumirei aqui os pensamentos de um outro autor bastante conceituado, Mario A. Perini.
Segundo este estudioso, quanto ao potencial para expressar, as diversas línguas se equiparam, mas quanto ao valor cultural, político e comercial elas se diferem muito.
Diz o lingüísta que existem as línguas que se prestam a todas as necessidades da vida moderna (imprensa, política, literatura etc.) são as chamadas línguas de civilização. Outras existem que se prestam apenas para uma conversa em família ou entre amigos, por exemplo, são as chamadas línguas ágrafas.
Perini diz que a língua de civilização do Brasil é a língua portuguesa, mas a língua utilizada no dia-a-dia pelos brasileiros se distancia da que encontramos na literatura e nas gramáticas.
Há, portanto, duas línguas distintas no Brasil: o português(língua de civilização) e o vernáculo(língua ágrafa).
Uma atitude preconceituosa, alerta, é considerar o vernáculo, por ser diferente da dita “língua de civilização”, como uma forma errada de se expressar. E conclui dizendo que o importante é adequar as duas línguas às mais diversas situações, pois há momentos em que o vernáculo se enquadra melhor à situação de interação do que a língua de civilização e vice-versa.
Então, garotada, não se trata de desacreditar os padrões da língua escrita e culta, mas sim de respeitar o diferente e conhecer cada vez mais, principalmente o padrão culto da língua, para se adequar às diversas situações de interação. Abraço a todos!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Fazer e haver

Segunda-feira, 21 de abril de 2008.

Olá, amigos!

Esta semana estréia este blog com dicas sobre a língua portuguesa. Meu objetivo é esclarecer as principais dúvidas que surgem em sala de aula e também nas situações cotidianas.

Os futuros posts serão, na maioria das vezes, sugestões de meus alunos, mas pedidos dos demais visitantes também serão atendidos.

Nesse primeiro post falaremos de uma confusão bastante comum no emprego dos verbos fazer e haver.

Fazer

Para não errar, observe se o verbo fazer está exprimindo tempo. Se for o caso, você estará diante de um verbo impessoal, sem sujeito, ou seja, não será preciso concordar com qualquer termo da oração, ficando sempre no singular. Então, nada de dizer fazem vinte e um dias...

Diga corretamente: Hoje faz vinte e um dias que Isabella Nardoni, de 5 anos, foi agredida e asfixiada pela madrasta.

Mesmo que o verbo fazer forme uma locução com um verbo auxiliar a regra continua valendo: Vai fazer vinte e dois dias que Isabella Nardoni...

A concordância deve acontecer, no entanto, caso a oração tenha um sujeito: Amiguinhos de escola fizeram uma homenagem para Isabella...

Haver

O verbo haver também é impessoal sempre que empregado no sentido de existir. Não tem, portanto, sujeito. Não diga haviam muitas pessoas na missa de sétimo dia de Isabella...

De acordo com a língua padrão, culta, diga corretamente: havia muitas pessoas...

Lembre-se de que mesmo no caso de haver formar uma locução verbal a regra se mantém: Deve haver mais de quinhentas pessoas na missa...

A concordância será normal sempre que o verbo haver puder ser substituído por ter: Os peritos haverão de encontrar o(s) culpado(s)/ Os peritos terão que encontrar...